Sobre ser escritor por Bukowski

“Se você for tentar, tente de verdade.

Caso contrário nem comece. Isso pode significar perder namoradas, esposas, parentes e empregos. E talvez a sua cabeça. Isso pode significar não comer nada por três ou quatro dias. Isso pode significar congelar num banco de praça. Isso pode significar gozação. Isso pode significar escárnio, isolamento. Isolamento é uma dádiva. Todo o resto é teste de sua resistência.

De quanto você realmente quer fazer isso. E você vai fazer isso, enfrentando rejeições das piores espécies. E isso será melhor do que qualquer coisa que você já imaginou. Se você for tentar, tente de verdade. Não há outro sentimento melhor que isso. Você estará sozinho com os deuses. E as noites vão arder em chamas. Você levará sua vida direto para a risada perfeita.

Esta é a única boa briga que existe.”

Por Charles Bukowski

Aquele que quiser nascer tem que romper um mundo.

EM MUITAS CULTURAS EXISTE UM ritual de passagem ou de iniciação entre a infância e a idade adulta. Nossa cultura foi perdendo esse rito de passagem tão necessário, embora restem elementos que continuam sendo praticados em alguns ambientes.

Durante muito tempo, a entrada na vida adulta era precedida de uma prova, de uma demonstração da maturidade. Nas tribos aborígines, é natural abandonar um jovem na floresta e obrigá-lo a passar alguns dias lá sozinho, para que cuide de si mesmo. Se cumprir o desafio e demonstrar que enfrentou o medo e a solidão, ele prova que pode enfrentar a vida real sem necessidade de ajuda e está pronto para se tornar um adulto.

Por outro lado, se o jovem volta correndo, aterrorizado, significa que ainda não está preparado para deixar a infância. Sair pela primeira vez para caçar também é uma maneira de enfrentar a vida real. O menino deve abandonar sua inocência para se tornar homem. Esses ritos implicam sempre desprender-se do eu anterior para deixar que o novo eu nasça.

Há uma cena em Sidarta que também ilustra o que é um rito de passagem, uma maneira de abandonar a antiga existência para abraçar uma nova. Depois de conhecer os prazeres mundanos, desesperado por ter se perdido de si mesmo, Sidarta planeja suicidar-se. E é aí que tem uma revelação. De repente se sente novamente vivo. Descobre que devia morrer para voltar a nascer, matar seu antigo eu, sua antiga vida, para poder iniciar uma nova –porque é quando deixamos morrer nossas etapas anteriores que somos capazes de compreendê-las, de olhá-las com outros olhos e obter conhecimento a partir delas. Sidarta percebe que, apesar de haver se perdido, de quase ter morrido, seu pássaro cantor segue gorjeando. Essa voz anterior representada pela ave lhe permite descobrir que pôde desprender-se de sua antiga vida. Esse mesmo pássaro estimula Demian, em outro romance de Hesse, a romper a casca, a abandonar a vida que levou e começar uma nova. Ao matar simbolicamente nossa vida passada, deixamos para trás tudo o que éramos até então, embora carreguemos o que aprendemos.

Renascemos em um novo mundo que se abre diante de nós não só com a sabedoria do que foi vivido, mas também com ignorância, com vazios que nos permitem descobrir o novo e nos conhecermos.

Nietzsche disse que devemos morrer várias vezes em uma vida. Ao longo de nossa existência, caminhamos, avançamos e escolhemos, e escolher é sempre deixar algo para trás, desprender-se de alguma parte de si mesmo. Eliminar etapas é uma forma de matá-las, de morrer para renascer diante de um novo desafio. Romper a casca é romper uma camada do mundo que nos rodeia. Em suma, como a ave que quebra o ovo depois de ter se desenvolvido o suficiente, crescer é transformar-se de dentro para fora. Pensar é romper. É pensar por si mesmo. Por isso, é preciso romper a casca, desfazer-se de toda ideia planejada para viver a própria vida.

Merlin disse no filme Excalibur: “Olhar um bolo é como olhar o futuro: até que o provemos, o que na verdade sabemos dele? Depois, já é muito tarde.”

Se não nos atrevermos a provar o bolo, como saberemos o que nos espera?

Como saberemos se é isso o que queremos?

É preciso romper a casca e atrever-se a viver.

Para ser escritor

Aos amigos escritores e ou amantes da literatura em geral, recomendo fortemente que leiam a obra “Para ser escritor (2010)” de Charles Kiefer. Abaixo deixo um bloco de reflexão contido no livro, pelo ato de amar as letras e escrever com a alma!

Transcrevo-lhes uma pequena passagem que me deu forças (Kiefer) para enfrentar a mediocridade geral em que vivia e me serviu de parâmetro ético nessa aventura de ser escritor. Ela se encontra na introdução da “Epístola preambular”, que abre o livro De l´infinito, universo e mondi, publicado em 1584:       

“Se eu, ilustríssimo Cavaleiro (ele se dirigia ao Cavaleiro da Ordem do Rei Cristianíssimo, o Senhor Michel de Castelnau, mecenas), manejasse o arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse um paletó, ninguém faria caso de mim, raros me observariam, poucos me censurariam, e facilmente poderia agradar a todos. Mas, por eu ser delineador do campo da natureza, atento ao alimento da alma, ansioso da cultura do espírito e estudioso da atividade do intelecto, eis que me ameaça quem se sente visado, me assalta quem se vê observado, me morde quem é atingido, me devora quem se sente descoberto. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber porque isto acontece, digo-vos que a razão é que tudo me desagrada, que detesto o vulgo, a multidão não me contenta, e só uma coisa me fascina: aquela, em virtude da qual me sinto livre em sujeição, contente em pena, rico na indigência e vivo na morte; em virtude da qual não invejo aqueles que são servos na liberdade, que sentem pena no prazer, são pobres na riqueza e mortos em vida, pois que têm no próprio corpo a cadeia que os acorrenta, no espírito o inferno que os oprime, na alma o error que os adoenta, na mente o letargo que os mata, não havendo magnanimidade que os redima, nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência­ que os avive. Daí, sucede que não arredo o pé do árduo caminho, por cansado; nem retiro as mãos da obra que se me apresenta, por indolente; nem qual desesperado, viro as costas ao inimigo que se me opõe, nem como deslumbrado, desvio os olhos do divino objeto: no entanto, sinto-me geralmente reputado um sofista, que mais procura parecer sutil do que ser verídico; um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que por consolidar a antiga e verdadeira; um trapaceiro que procura o resplendor da glória impingindo as trevas dos erros; um espírito inquieto que subverte os edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidade. Oxalá, Senhor, que os santos numes afastem de mim todos aqueles que injustamente me odeiam; oxalá que me seja sempre propício o meu Deus; oxalá que me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo; oxalá que os astros me tratem tal como à semente em relação ao campo, e ao campo em relação à semente, de maneira que apareça no mundo algum fruto útil e glorioso do meu labor, acordando o espírito e abrindo o sentimento àqueles que não têm luz de intelecto; pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e se erro, julgo não errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo por amor da vitória em si mesma (pois que todas as reputações e vitórias considero inimigas de Deus, abjetas e sem sombra de honra, se não assentarem na verdade), mas por amor da verdadeira sapiência e fervor da verdadeira especulação me afadigo, me apoquento, me atormento. É isto que irão comprovar os argumentos da demonstração, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo reto, informado por imagens não falsas, que, como verdadeiras embaixadoras, se desprendem das coisas da natureza e se tornam presentes àqueles que as procuram, patentes àqueles que as miram, claras para todo aquele que as aprende, certas para todo aquele que as compreende”.       

Quatrocentos e vinte e seis anos depois dessas palavras, outras palavras não são necessárias. Calo-me, sob o olhar sereno do filósofo, em meio ao fogo…

Neil Gaiman & conselhos para novos escritores.

 

Neil Richard Gaiman, tendo posteriormente adotado o nome de Neil Richard MacKinnon Gaiman (PortchesterInglaterra,10 de novembro de 1960) é um autor de romances e quadrinhos britânico nascido na Inglaterra.

Entre suas obras em prosa estão “Deuses Americanos” e “Belas Maldições”, a segunda em parceria com Terry Pratchett; e sua criação quadrinística mais conhecida é Sandman, que tem como personagens principais Sandman, a personificação antropomórfica do Sonho, também é conhecido como Morpheus, numa referência à mitologia grega e seus irmãos, Morte, Destino, Delírio, Desejo, Desespero e Destruição.

As capas da revista foram desenhadas pelo parceiro artístico e amigo de Neil Gaiman, Dave McKean (com quem trabalhou em outras histórias em quadrinhos como Violent Cases, Orquídea Negra e Mr. Punch). Em seus trabalhos cinematográficos, encontramos “Mirrormask”, seu filme ao lado de Dave McKean e a Jimmy Hensons Company, estreou em Maio de 2005 nos cinemas e “Neverwhere” mini série para televisão que escreveu, e é exibido pela BBC inglesa. Em 2007, entrou em cartaz a animação Beowulf, co-roteirizada por ele, além do longa de Stardust, uma de suas mais aclamadas obras, realizada ao lado de Charles Vess.

Sou um grande fã dos seus trabalhos literários e de certo modo, “os mundos que invento” em princípio, tiveram influencia da escrita dele. Até que chegou o dia, que tive “bagagem literária” para alçar vôos únicos. A entrevista transcrita abaixo, leva a uma reflexão sobre esse estado de mutação que o escritor iniciante deve viver, para sentir se realmente ele será um ESCRITOR de verdade!

Passo a palavra ao grande mestre das letras fantásticas Neil Gaiman :) 

Texto transcrito e traduzido livremente de entrevista com o autor Neil Gaiman dada ao The Nerdist Podcast.


The Nerdist Podcast: Eu sei que você precisa terminar em um segundo, só quero te fazer mais uma pergunta, como um dos grandes escritores em nossa cultura e também como alguém que trabalhou com Alan Moore. Eu sei que temos muitas pessoas que são escritores ou trabalham com criação que ouvem o nosso podcast. Existe alguma forma de sintetizar um pouco do seu processo de escrita ou algo que você tenha aprendido, algo que você considere importante. Você constantemente ouve essa pergunta das pessoas, algo como: “Sou um jovem escritor, você tem algum conselho, o que eu faço?” Eu sei que é uma pergunta impossível de responder mas…

Neil Gaiman: Não, não, você quer saber minha resposta para isso? Eu posso responder.

Você escreve todo dia, ou você só escreve quando está inspirado? O que você aprendeu? Continuar lendo Neil Gaiman & conselhos para novos escritores.

Reflexão sobre a beleza

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“Você conhece uma moça tímida e despretensiosa.

 Se lhe disser que ela é linda, a moça vai achá-lo muito gentil, mas não acreditará nas sua palavras. Ela sabe que a beleza está no seu jeito de olhá-la(…) E. às vezes, isso é o bastante(…)

Mas existe uma maneira melhor.

 Você lhe mostra que ela é linda. Faz de seus olhos um espelho, de sua mãos, uma prece no corpo dela. É difícil, dificílimo, mas, quando ela realmente acreditar em você, de repente, a história que ela conta a si mesma em sua cabeça se modifica. A moça se transforma.

 Deixa de ser vista como bonita. Torna-se bonita ao ser vista.”

Por Kvothe 

( Livro O Nome do Vento. Autor Patrick Rothfuss)

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