Cronos, o mais honesto dos pais

NA MITOLOGIA GREGA, Cronos era o deus do tempo, das idades e do Zodíaco. Era um deus incorpóreo, que criara a si mesmo no início dos tempos.

Seu correspondente na mitologia romana é Saturno, retratado no célebre – e horripilante – quadro de Goya. Cronos sabia que estava condenado a ser destronado por um de seus filhos.

Por essa razão, comia sua prole assim que nascia. Contudo sua esposa, Reia, certa vez conseguiu enganá-lo, dando a ele uma pedra envolta em tecidos. Cronos caiu na armadilha, e com isso Zeus se salvou. Zeus foi criado em segredo por coribantes e ninfas. E, para que o pai devorador não o descobrisse, cada vez que Zeus chorava os coribantes provocavam alvoroço junto ao leito do menino para que não se ouvisse seu choro.

Vejamos qual é o ensinamento no mito de Cronos ou Saturno: o tempo nos devora, e por isso devemos aproveitá-lo ao máximo. Cada ação valiosa que realizamos no dia a dia é uma pedra na boca do velho deus, pois o tempo só passa inutilmente para aqueles que querem perdê-lo.

Hoje no dia do meu aniversário, essas palavras forjam em minha alma um pensamento. Somos passageiros, exigindo eternidade. Então, não posso desfazer a história e tampouco apagar os erros. A única coisa possível é continuar apontando o lápis para escrever o restante que ainda falta.

Nossa salvação é a morte, mas não esta.

ESTE AFORISMO mostra nossa possibilidade de morrer e renascer no decorrer de uma mesma vida. Vejamos um exemplo concreto disso.

Ceferino Carrión (1928-1996) perdeu o pai e o irmão durante a Segunda Guerra Mundial, quando um torpedo alemão atingiu o barco em que fugiam da fome que assolava a Espanha. Ceferino trabalhou como operário em Barcelona.

Depois rumou para a França, onde foi garçom, e de lá emigrou clandestinamente num navio para os Estados Unidos, tendo lavado pratos durante anos sem saber falar inglês. Pouco a pouco foi aprendendo o idioma e assimilando a cultura do país.

Decidiu mudar-se para Hollywood.
Lá, trocou seu nome para Jean Leon e abriu um restaurante junto com um ator com quem fizera amizade: ninguém menos que James Dean.
Após a morte do amigo num acidente, Jean Leon ficou à frente do La Scala, o “restaurante dos atores”, que serviu a “última ceia” de Marilyn Monroe. Insatisfeito com os vinhos californianos, investiu na Penedés, na Espanha, que passou a criar vinhos especiais para seu restaurante, os quais acabaram por se tornar uma das marcas mais respeitadas da vinícola.

A vida de Jean Leon demonstra que, quaisquer que sejam as circunstâncias, é possível morrer e renascer para o que cada um está destinado a ser.

Crer no indestrutível que há dentro de nós e não aspirar a isso

HÁ UMA FÁBULA INDIANA sobre um filho primogênito que abandonou o lar porque os pais estavam prestes a casá-lo com uma jovem, sem que tivessem perguntado a sua opinião. O rapaz só a vira uma vez, e ela lhe parecera feia. Ele também não era muito bonito, mas…

Um dia, decidiu fugir. Um ano depois, chegou a uma terra distante, em que as mulheres eram especialmente belas; ele lhes parecia atraente porque era exótico. Procurou e procurou a amante perfeita.

No entanto, apesar de ser considerado bem-apessoado, nenhuma moça se aproximou dele. Ele não conseguia entender por quê. Viajou então para outros lugares em busca da amante perfeita.

Novamente, nenhuma mulher se aproximou dele. Continuou a viajar e envelheceu sem ter conhecido a mulher de seus sonhos.

Cansado de vagar pelo mundo, retornou à sua cidade natal. Ninguém o reconheceu. Viu uma mulher lendo à sombra de uma árvore, falou com ela e se sentiu reconfortado com a conversa. Olhou-a nos olhos e percebeu que teria desejado compartilhar a vida com ela. De repente, reconheceu naquele rosto a mulher que ele desprezara anos atrás e arrependeu-se.

Esta fábula nos mostra que às vezes desprezamos o que temos à mão justamente porque está tão perto que não somos capazes de vê-lo.

O estado de espírito consciente em um novo ano

 Através dos olhos de uma criança, um “Mar” de “consciência” pode surgir.

E desse Mar a paz que leva ao infinito. Ao conhecimento de si mesmo…

Grandes mestres do passado atingiram uma compreensão profunda da vida. Não porque tiveram um árduo treinamento intelectual, mas porque abandonaram todas as falsas concepções sobre a realidade e transcenderam os limites da mente comum. Da experiência da vida em sua originalidade e espontaneidade surgiu o Chán.

Desde o nosso nascimento, aprendemos a interpretar os acontecimentos, a identificar os seres e objetos através de noções comparativas. Supomos o claro quando verificamos o escuro, descobrimos o “eu” quando admitimos o “outro”. A partir da definição de referenciais, desenvolvemos nosso conhecimento do mundo, baseados em nossas próprias conclusões mentais. Por serem pessoais e subjetivas, essas noções não podem ser consideradas verdades absolutas. Não podemos dizer onde termina o claro e começa o escuro, pois os opostos fazem parte do mesmo princípio. A concepção de um ou de outro é uma questão de interpretação.

Esse princípio é observado em todos os fenômenos no universo, onde nada possui uma realidade absoluta e imutável. Tudo é relativo e depende do olhar do observador. Essa falta de substancialidade real, ou seja, a vacuidade dos fenômenos, é conhecida nas tradições budistas como sunyata. Mais um reconhecimento das características transitórias do universo do que propriamente a nulidade de sua existência, o conceito do sunyata abre a nossa mente para um campo além do entendimento comum e intelectual. Ele nos atenta para o fato de o que chamamos de real ser uma idéia suposta e dependente de um referencial. Aquilo que existe, ao mesmo tempo não existe e esse entendimento não pode ser alcançado se não superarmos a lógica materialista.

Os meios para se experimentar essa consciência dependem principalmente da prática da meditação. Procura-se atingir um estado elevado de consciência, a não-mente, onde percebe-se a natureza subjetiva da mente comum. Nesse estado, não há identidade, pois a mente se une à grande mente (bodhicitta) e as distinções deixam de existir. É o estado do samadhi.(Um estado de “Observador Consciente”!)

Um feliz 2015!